segunda-feira, 10 de julho de 2017

Álvaro Castro Dão branco 2012


Havia uma altura em que me metia em tudo e mais alguma coisa. Ele era na política, ele era nos escuteiros, ele era no ginásio, ele era na tuna, ele era nas associações académicas, ele era nos cafés a toda a hora, ele era numa banda de música, ele era nas tertúlias literárias, ele era no teatro, etc etc etc, e houve uma altura em que era quase tudo isso misturado com os estudos e o trabalho em part-time... Cansei-me de tudo isso, cansei-me de não ser eu. E decidi levar uma vida mais simples, ser mais simples. Eliminei algumas (quase todas) as "presenças" e decidi ser eu.
Entretanto arranjei um trabalhito, a leitura e escrita nunca me abandonaram, conheci e casei-me com uma linda mulher. Vivo assim. E sou feliz assim: por ser simplório. Invisto o meu tempo nestas "variáveis" e às vezes parece que o tempo não chega.
E às vezes faço uns almoços e jantares um pouco mais complexos para nós os dois na nossa vida simples. E abro umas garrafitas. Como por exemplo, este Álvaro Castro Dão branco 2012. Vinho simples. Sem grandes misturas e avesso a complexidades. Mostrou-me que a simplicidade pode ser sinónimo de riqueza. Portanto, um simplório. Vinho com uma certa exuberância, notas cítricas e minerais, alguma fruta mais quente/exótica, vinho muito vivo, fresco e elegante.
Viva a simplicidade!

Ricardo Soares

terça-feira, 4 de julho de 2017

Niepoort Portas Abertas 2017


De portas abertas, no dia 1 de Julho de 2017, a Niepoort convidou clientes, parceiros e amigos para uma prova informal nos seus jardins em Vila Nova de Gaia, num ambiente descontraído ao ar livre, para dar a conhecer tudo o que produz, comercializa e apoia, assim como a presença de alguns produtores e vignerons.

Neste certame, de copo na mão e com a presença da família Niepoort, tive a oportunidade de desfrutar, trocar impressões, ouvir as novidades e processos, conviver, provar os vinhos presentes, beber chá, "trincar" algumas iguarias (leitão, sushi, patés, queijos, enchidos, ostras, salgados, etc). E claro, não podia faltar a música ao vivo que nos envolveu nesta tarde quente de Verão.


Outro ponto alto, entre outros, foi a abertura de um Demijohn Garrafeira Niepoort 1987 que de uma maneira muito peculiar envelhece o Vinho do Porto.


Desde já, um muito obrigado à família Niepoort  por este soberbo convívio.

Ricardo Soares

sábado, 24 de junho de 2017

Hibernar/Desligar/Reiniciar


Tenho pensado em todas as opções para o meu blog Desarrolhar: Hibernar/Desligar/Reiniciar.

Se repararem tenho estado no modo hibernar.
Não por falta de vinho. Vinho há aqui muito, graças a deus. Do bom e do melhor. Tenho fotos que comprovam os meus deleites. Muitos não divulgo, seria assaltado com toda a certeza absoluta. Não faz parte de mim meter ranço a ninguém.
Não por falta de visitas aos produtores, na semana passada andei a passear tranquilamente por "terras" das Caves de S. João, Bussaco Palace, Adega Viúva Gomes e, como sou tolo, fui a Santarém buscar a "Lisboa" de Hugo Mendes sob um sol arrasador de 40°, etc etc etc. Trouxe a mala do meu "comercial" cheia de coisas boas. Alguns vinhos estou proibido de divulgar.

Mas o porquê do modo hibernar? Enquanto não desligo definitivamente vai ficar assim. A hibernar. Quando tiver assim umas horitas sozinho, e me apetecer, vou publicando alguma coisa.

À partida, continuarei a oferecer a minha amizade a quem quer que ma peça. Seria lamentável, mesmo sendo eu um jovem, que não tivesse aprendido ainda que a verdadeira qualidade dos amigos acaba sempre, cedo ou tarde, por se revelar.

Confesso que também tenho lido por aí muita coisa, como hei-de dizer, ilegível...
Às vezes parece-me triste que alguém publique no Facebook apenas "Vou comer um amendoim". Mais valia optarem pelo silêncio, sinal de que nada mais possuem para partilhar.
Parecem os telejornais ultimamente, só palha e novela, não tardará a que se adiante alguém com esta informação, "Vou soltar um peido."

E com isto me fico,

Vou apreciar os meus vinhos tranquilamente,

Apetece-me dormir.

Ricardo Soares

quinta-feira, 15 de junho de 2017

M.O.B. Lote 3 tinto 2014

Aviso: hoje o texto vai ser muito confuso.

Às vezes há queixas: ou não escrevo nada de jeito, ou escrevo demasiado, ou coisas sem nexo. Uns são gregos, outros troianos, a maioria nem uma coisa nem outra. E hoje não vai ser diferente.
Retomaram-se-me as músicas do vinho, já vos aconteceu? E se eu vos disser que sou como Beethoven: deficiente auditivo. Sim, padecemos do mesmo, se calhar eu com mais sorte do que ele visto que tenho a oportunidade de ouvir os sons com o auxílio de uma prótese auditiva. Mas adiante que as surdezes não são para aqui chamadas. Eu bem avisei que o texto ia ser confuso. Adiante.
Uma tríade, na música, refere-se ao conjunto de 3 notas musicais que estruturam a formação de um acorde. E da Trindade da música harmonia – melodia – ritmo, já ouviram falar? Não tarda muito começo também a falar nas Trindades Espírito-Alma-Corpo. Ah ah ah, eu bem avisei que o meu estado hoje é de paranóia. Vá, mais esta: Pai - Mãe - Filho. Eh eh eh, podia ficar aqui o dia todo a divagar...


Só mais esta: M.O.B.: Moreira, Olazabal, Borges.
Traduzido por miúdos podemos então dizer que MOB é constituído pela Trindade dos produtores de vinho Jorge Moreira (Poeira), Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão) e Jorge Serôdio Borges (Wine & Soul). Que tríade fantástica, este acorde criado pelos MOB, de tão redondinho que estava... entoou uma lindíssima cor granada brilhante, aromas a fruta delicada e uma mineralidade espectacular, algumas nota leves a especiarias finas e um certo pendor balsâmico, acidez moderada, leve e equilibrado.

Albert Einstein, como grande amante da música,  fez um paralelismo entre ela e a Matemática: “A Música, de tão perfeita, é pura como a Matemática; a Matemática, de tão simples, é deslumbrante como a Música. A Música parece uma equação; a equação bem formulada é cheia de harmonia e sonoridade”, direi eu o mesmo acerca deste vinho.

Ricardo Soares

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Cockburn's 20 anos (engarrafado em 1988)


Conheci um senhor que guardava o Douro dentro de si e em criança tinha o sonho de ser arrais, como o pai. Contava-me tantas histórias vividas, das vezes que nadava o Douro de margem a margem, de como fez a instrução primária com distinção e depois um padre o quis levar mas o pai não deixou, de como o pai o obrigava a partir amêndoas e o miolo tinha de sair direitinho para vender e ganhar mais uns tostões, dos sapatos emprestados para ir à comunhão e ao exame da 4a classe, de como andava de nagalho à cabeça e todo nu, do rio quando ficava bravo no inverno, das trutas e barbos que apanhava e vendia (ficava só com 3 trutas, uma para o pai e as restantes para dividir entre a mãe e os 6 filhos), da miséria que era naquele tempo, das águias imperiais que planavam lá no alto, da apanha da azeitona, das tempestades assustadoras, das crianças que iam a enterrar e que morriam sem explicação, das vindimas até à última uva e se alguma caísse ao chão levava um estaladão, dos dias e noites que ia com o pai, arrais da região, nos rabelos com mais de 50 pipas da Cockburn's e às escondidas "mata-bichava só um bocadinho daquele Vinho"...


E por isso o vinho do Porto Cockburn's é para mim um lugar de afectos... e este Cockburn's 20 anos foi o renascer de todas as conversas que tive com este senhor. Muito bonito na cor âmbar, tem mesmo uma certa austeridade que lhe dá uma certa graça, muito gordo e aveludado na boca, de textura sedosa e grande delicadeza de aromas e com um final longo e elegante... Sem dúvida um Porto cheio de afectos e murmúrios de conversas já falecidas...

O meu avô guardava o Douro dentro de si e contava-me todas estas e outras histórias, obras de gente simples e humilde, mas quis o destino que o meu avô se empregasse nos comboios a vapor, no percurso diário Porto - Barca d'Alva. E dedicou toda a sua vida a sonhar: - ser arrais dos barcos rabelos!

Ricardo Soares

domingo, 4 de junho de 2017

Quem comenta o que se bebe e o que se escreve?


Quando aqui publico um qualquer texto de vinho, à semelhança de alguns companheiros, e embora eu não seja um teórico, fico sempre na expectativa de que um número significativo dos não sei quantos "amigos" dos grupos vínicos de Facebook interrompa por uns minutos o seu "conforto", e se junte a mim no entusiasmo de pertencermos a uma espécie que não se limita a saltar de árvore em árvore como os macacos, arremessando entre si cocos e bananas (também poderiam ser, como está na moda, o arremesso de revistas).

Engano meu. Apenas um punhado muito reduzido manifesta o seu gosto. Em geral, preferem informar-nos do essencial, isto é, a foto de um vinho caro, um vinho velho, um vintage ou um colheita todo xpto, ou um vinho que vos foi dado mas que juram a pés juntos que o compraram.

Creio que somos o único animal que sabe ler. Uma crónica, um texto, identicamente ao trabalho de um produtor de vinhos, requer muita concentração, trabalho e suor.

E como somos humanos, peço àqueles que não queiram, ou não possam, reflectir sobre o tema, se abstenham de recorrer à ironia, ou à brejeirice.

Senão mais vale falar de amendoins...

Ricardo Soares

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Casal Figueira branco 2006 tradition


Já leram o poema "na hora de pôr a mesa, éramos cinco" in "A criança em ruínas", de José Luís Peixoto? Aconselho a ler... podem ler aqui .

Enquanto bebia o "Casal Figueira branco 2006 tradition" gorgolejava dentro de mim este poema. Mas no meu caso éramos seis: a minha esposa, os meus sogros, o meu cunhado, eu e o produtor António Carvalho. Sim, o falecido António Carvalho também esteve presente. Tenho várias testemunhas oculares que confirmam: éramos seis. E bebemos...

Este vinho só faz sentido se for bebido na presença de António Carvalho. Só assim ele se mostra cheio de brilho, límpido, intenso, denso, encorpado, persistente, mineral, boa acidez e volumoso. Com uma personalidade irrepetivelmente única.

E de repente, enquanto escrevo este texto, fiquei com saudades. Deste vinho e do bom anfitrião António Carvalho.
Na hora de pôr a mesa, seremos sempre seis. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre seis: a minha esposa, os meus sogros, o meu cunhado, eu e o António Carvalho.

Que me perdoe a sua esposa Marta Soares...

Ricardo Soares