sexta-feira, 8 de junho de 2018

Anthony Bourdain


Anthony Bourdain

Nova York, 25 de junho de 1956 — Estrasburgo, 8 de junho de 2018


"O suicídio não é querer morrer, é querer desaparecer", Georges Perros.

A cozinha portuguesa está entre as melhores?
Anthony Bourdain - "É impossível pensar assim. Qual a melhor cozinha? Depende da altura do dia e de quão bêbado estou"
in Expresso

domingo, 3 de junho de 2018

Tirado a Ferros branco 2015


E este vinho (re)lembra-me uma pequena história real: um acidente de carro com três mortos, um tetraplégico e eu neste momento inteiro a escrever. Ainda hoje os sinto...

Moral da história: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.

Por vários motivos, e sem saber porquê, adiei a abertura deste vinho. Adiei adiei adiei até ao dia em que o produtor do Tirado a Ferros, Pedro Pimentel, me desafiou a abrir e a não perder tempo. Ensinou-me que o verdadeiro tempo livre não é sinónimo de repouso mas sim a liberdade de fazermos o que queremos - por exemplo, abrir este vinho - e não nos restringirmos ao ócio.


A impotência paralisava as minhas mãos perante o saca rolhas, a angústia útil de beber um dos melhores vinhos da minha vida. Repito: um dos melhores vinhos da minha vida.
Uma ode à vida.

Este Tirado a Ferros é o maior serviço que o Pedro Pimentel, pela sua arte e existência, proporciona aos seus antepassados e ao vinho português - uma dádiva e uma certeza.


Neste vinho estão várias gerações de mãos dadas. Nele se sente a simplicidade rústica, as mãos calejadas, a pele tostada do sol devido a uma vida de labuta, as faces gretadas e no entanto tudo muito gentil, aconchegante, acolhedor e futurista.

Como dizia Agustina Bessa Luís: "as coisas simples são indissolúveis. Não havendo nelas contradição, a tendência é para serem duráveis."

Infelizmente a Comissão Vitivinícola Regional do Dão não pensa assim...talvez ainda bem porque este é autêntico Vinho de Mesa a homenagear os Simples.

Ricardo Soares

terça-feira, 29 de maio de 2018

Royal Palmeira loureiro 2015

Não querendo discutir ideologias políticas começo por citar Francisco Sá Carneiro: "Quando tenho um minuto faço como o Mário Soares: vou ver galerias de pintura".


E assim foi. Peguei na minha mulher, desloquei-me a uma "galeria", cuja moldura paisagística não nos cansamos de apreciar, e sorvemos toda a arte exposta. 


Licitei uma peça que estava à venda: Royal Palmeira loureiro 2015.

Foi isso que senti perante esta obra de arte, perdão, o vinho: uma pausa, um encontro de sensibilidades e a comunhão entre nós...


A arte tem sempre um conteúdo subjectivo - algo que atende nossas necessidades "abstratas" e que nos agrada - neste caso um vinho complexo e alguma persistência, delicado e fresco, com acidez e elegância, mineral, aromas cítricos, florais e frutados, e final longo. 


Este vinho não foi feito para ficar num museu, levem para casa e apreciem.

Ricardo Soares

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Quinta dos Abibes reserva tinto 2013


O Quinta dos Abibes reserva tinto 2013 é um autêntico intruso de inesperada nobreza e elegância.

Não...não me acredito que o Professor Francisco Batel Marques o "construiu" com a finalidade de "parecer bonito". Muito menos é um vinho "politico", de sujeição social, nem a prosa de uma ideia que faz uma época ou conceito. É algo mais. É o próprio alento de prazer humano com uma finalidade sublimar.

É um vinho que consegue seduzir por si mesmo e sem necessidade de propagandas. Um raro encontro de sensibilidades, sumptuoso, de harmonia rigorosa das formas e proporções do corpo, e pelos efeitos que produz na imaginação...

É uma nudez que se despe lentamente.

Ricardo Soares

terça-feira, 22 de maio de 2018

Pizza do Zmar e Pegos Claros Rosé 2013

Desgarfar: morfar; manjar; dissipar; comer; mastigar e engolir; refeição

O que não falta por aí são ristorante pizzeria espalhados pelas ruas e shoppings com nomes e ementas em italiano, com certificados de pizza napolitana, pizzeiros com nomes artísticos em italiano, mestres pizzaiolo napolitano, etc.
Mas o pior é, no meio disto tudo, encontrar uma pizza que se preze... Por isso tenho optado pelas pizzas do continente e comer em casa.


Como diz Dostoievski: "Há momentos, e você chega a esses momentos, em que de repente o tempo pára e acontece a eternidade." E assim foi: eu, minha mulher, Pegos Claros Rosé 2013, pizza e  Zmar.
Até hoje houveram apenas 2 pizzas que me ficaram na memória: a pizza do "Ivo a Trastevere, em Roma" e a pizza do "Resort Zmar Eco Experience, em Zambujeira do Mar".


E é desta última que me apetece falar, sem grandes alaridos nem exageros. Situado em plena Costa Vicentina Alentejana, num resort "cheio" de água, espaços verdes, animais e céu aberto, foi no Zmar que encontrei a melhor pizza até aos dias de hoje em Portugal. Não sou um expert na matéria, longe disso, mas foi a que melhor cumpriu os meus requisitos e da minha mulher, grande apreciadora de pizzas.


A pizza veio sem exageros nas quantidades e variedades de ingredientes, apenas o suficiente, elaborada sobre uma massa fina e de borda simples, tudo numa consistência perfeita. A frescura dos cogumelos e a pouca gordura tanto nos queijos quanto na carne fizeram o seu trabalho, isso porque as gorduras interferem diretamente no sabor e deixam a massa mole e aguada. Tudo numa composição muito simples com ingredientes frescos e sem exageros, com os sabores da massa e do molho de tomate a serem sentidos na sua plenitude e uma leve crocância, sem aquela textura nem muito mole nem muito dura.

Naquele momento a harmonização não poderia ter sido melhor: Pegos Claros Rosé 2013. Brevemente falarei dele...


A todos vós, principalmente Mestres Pizzaiolos, convido-vos a darem um mergulho na piscina do Zmar e experimentar as pizzas...


Ricardo Soares

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Casa do Barroso alvarinho reserva 2017


Assunto: cinco dias, três Casa do Barroso alvarinho reserva 2017. Podia ser pior..

Creio que o produtor deste vinho, Jorge Barroso Pereira, irá compreender perfeitamente este texto. Só espero que a minha perturbação não tome proporções mais graves e ir parar às mãos dele!

Poderá um psicólogo como eu desenvolver perturbações psicológicas, presentes no DSM - Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders? Claro que sim, porque não!?

Comigo passa-se rigorosamente isso com o Casa do Barroso alvarinho reserva 2017...eu sei que o vinho é novo, precisa de guarda, vai estar melhor daqui a uns meses ou anos, patati e patatá...


Após folhear o DSM, à procura dos critérios que preencham a minha patologia, chego à conclusão que tenho Perturbação Obsessivo Compulsiva.

Diagnóstico:

Presença de obsessões pelo vinho Casa do Barroso nomeadamente pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes; bem tento ignorar ou suprimir tais pensamentos, impulsos ou imagens mas isso causa-me um certo sofrimento e ansiedade...

As compulsões estão igualmente presentes nos comportamentos repetitivos que me sinto compelido a executar em resposta à minha obsessão. Por isso a abertura do Casa do Barroso alvarinho reserva 2017 é uma prática recorrente visto que este comportamento visa prevenir ou reduzir a minha ansiedade ou sofrimento.

Mais informo que os sintomas obsessivo-compulsivos não se devem aos efeitos fisiológicos de qualquer substância, medicamentos ou outra condição médica.


Já escrevi sobre este vinho no blog Desarrolhar e já expus e teci várias considerações sobre ele nos grupos de Facebook. Tenho igualmente abordado, aconselhar e dar a provar este vinho junto dos meus círculos pessoais. A única diferença que encontro neste vinho é a de que, à medida que o tempo passa está cada vez melhor...

Ricardo Soares

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Restaurante Elvira

Desgarfar: morfar; manjar; dissipar; comer; mastigar e engolir; refeição


Hoje escolhi para desgarfar o restaurante Elvira, um dos meus restaurantes de eleição, longe do rebuliço e onde o refúgio me é reconfortante.
O Minho sempre foi um dos pulmões da minha infância. As raízes familiares, as paisagens rurais minhotas e as gentes fizeram com que eu sentisse necessidade de respirar o seu oxigénio. Ironia do destino, hoje vivo nesta região. E a típica gastronomia sempre foi o meu "prato do dia": as mãos minhotas dos meus pais, das minhas avós e tias - conservando a tipicidade e genuidade, tradição, cultura e identidade - marcaram e continuam a marcar os meus manjares.

No restaurante Elvira, em Braga, cabe tudo isso: a cozinha tradicional, executada com produtos de excelente qualidade, envolvida pela paisagem rural e pelo rio Cávado que nos remete para o conforto familiar. Cabem também os jardins, as árvores, os frutos, as flores, os animais que por ali vagueiam, as pedras e penedos que suam no interior e no exterior, o fumo nas chaminés...e o silêncio...



Na sua maioria a ementa convida à presença familiar, amizade ou grupos e assenta em menus para 2 pax.

As entradas são um regalo: rissóis e bolinhos de bacalhau que primam pela intensidade da matéria prima e suave textura, uma salada de bacalhau bem temperada e uns folhados de camarão divinal. E uma broa como há muito eu não via num restaurante.

Nos pratos principais a oferta assenta na tipicidade, variedade e excelência dos produtos e sua execução. Apetece dizer: venha o diabo e escolha.
Nas carnes o taco do lombo de boi cativa os olhares presentes; costeleta de vitela na brasa cortada na perfeição, tenra e rosada; os bifes de porco preto que ainda hoje não me saem da cabeça;  que poderão ser acompanhados com arroz de feijão, arroz de grelos ou batata a murro; aos domingos o famoso "cabritinho" assado.
No lado dos peixes o "único" arroz de tamboril com gambas; filetes de pescada fresca; arroz de robalo com gambas; filetes de polvo; bacalhau à Elvira; e cabeça de pescada