domingo, 11 de novembro de 2018

Vinho e Barba


Numa "era" em que, infelizmente, quase todas as crónicas de vinhos rondam apenas as notas  organolépticas (risos...) apetece-me debruçar sobre algo diferente.

Sei lá...por exemplo, vinho e barba. Eu, amante de vinhos e barbudo me confesso.

Se repararem, desde os primórdios que o vinho e a barba são para o homem sinónimos de virilidade, de masculinidade e maturidade. Através de uma breve pesquisa pelo Google veremos que ao longo da história de diferentes culturas, aos homens bebedores ou com barba foram atribuídos: sabedoria, potência sexual e status social. Hoje predomina a estética e requinte.

Em algumas religiões a presença e tipo de barba, assim como os vinhos, denotam o grau de importância hierárquica ou até o status social a que o indivíduo pertence.

Se eu for a um psicólogo (sendo eu um deles) talvez me atire tudo isso à cara. A minha mulher talvez me diga que sou apenas vaidoso, peneirento e "esquisito" a beber.

Introspecção: vaidoso, requinte e prazer num bom copo vinho.

Por isso gosto de percorrer e comprar em algumas garrafeiras como a Garrafeira do Jofre, Wine o' Clock, Garage Wines, Corte Inglês, Garrafeira Nacional, Goliardos, Fernando's Winehouse e essencialmente directamente nos Produtores.

A barba, além de comprar artigos no Corte Inglês, sugiro que visitem os produtos de excelência dos Barbudos (www.barbudos.pt).

"...Corre por aí que sou vaidoso. Mas eu acho que a vaidade é a coisa mais bem distribuída deste mundo. Vaidosos somos todos nós. A questão está em saber se há alguma razão para o ser ou se se é vaidoso sem razão nenhuma." - José Saramago.

...E uma barrica de vinho produz mais milagres que uma igreja cheia de Santos...


Ricardo Soares

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Viúva Gomes Colares tinto 1931














Hoje o post vai sem a foto do vinho que bebi.

Tentem perceber uma coisa:
- Durante 30 minutos revivi 87 anos dentro de um copo.

NÃO há imagens que valham mais do que mil palavras. E há palavras que também NÃO valem de muito.

Não há nada, palavras ou imagens, que expliquem o que são 87 anos dentro de um copo.

Apenas o momento vivido, e a sua memória, valem mais do que uma imagem e mil palavras.

Tudo aconteceu no quartel-general da Adega Viúva Gomes. O pai e o filho Baeta à minha espera, como sempre pontuais. E muito, muito, muito cordiais, como sempre foram.

Adoro esta família, esta casa, os vinhos e as suas histórias.

Quando jorrou no copo o belíssimo néctar de 1931 contentei-me em descobrir, abstendo-me de fotografar e de explicar. Descobrir a profundidade, as vozes, a temporalidade, a história, as mãos, o suor, as lágrimas e a salinidade do vinho.

Repito:
- 87 anos em 30 minutos dentro de um copo.

Não será difícil perceber que "os" Viúva Gomes fazem parte dos meus "tempos" favoritos.

Por isso hoje, para vós, não vale a pena dizer palavras em vão nem sequer uma imagem recreativa.

Contentem-se com estas palavras que são uma vida inteira dentro de um copo: Viúva Gomes Colares tinto 1931.

Intemporal dentro de um tempo.

Ricardo Soares

P.S.: as fotos que tirei foram antes de beber o belíssimo Viúva Gomes Colares tinto 1931. A partir daí esqueci-me completamente da câmara fotográfica...








domingo, 30 de setembro de 2018

Boango branco 2016


Antes de falar do vinho tenho de obrigatoriamente falar do Hugo...o seu criador!

O Hugo consegue impregnar paixão nos seus vinhos, mas é uma paixão que implica "sofrimento". Ele e os seus vinhos não são "dados", não se fizeram sozinhos. Exigem uma dose de sofrimento. É necessário um trabalho duro e uma grande vontade para transformar uma paixão numa grande virtude, neste caso num vinho, no Boango.

Mas ao mesmo tempo noto, por força de algumas conversas privadas que vamos tendo, que a paixão do Hugo aumenta em função dos obstáculos que se lhe opõem.

O Boango é a paixão do Hugo, que se torna uma força quando encontra saída no trabalho das suas próprias mãos ou na sua própria actividade criadora. Por outras palavras, sai-lhe do suor e do lombo.

Precisamente uma das principais premissas do Douro: não há recompensa sem uma dose de sofrimento, sem trabalho, sem suor, sem sangue...

O Hugo é o Hugo, o Hugo é o Douro, o Hugo é o Boango. 


Falando do Boango...disse uma vez ao Hugo: "eh pá, os teus vinhos são mais outonais, mais invernais, vinhos para tempos frios e chuvosos, para tempos mais acolhedores..." Nada mais errado, este Boango branco, neste tempo bem quente, cerca de 29.° graus, com uns rojões "bem puxados", caíram lindamente.
Com uma tonalidade amarelada brilhante, no nariz aromas a fruta madura e notas minerais, paladar algo macio, uma certa frescura e longevidade. Um vinho fresco para homens de barba rija. Um belíssimo vinho outonal, invernal, primaveril e para este "verão" ( que entretanto já acabou)...

O Hugo, o Boango, não são pessoas de ficarem à "espera que as sandes se façam sozinhas"... cabe também a nós entender e compreender o vinho!

Ricardo Soares

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Vega Sicilia Oremus Mandolás Tokaj Dry 2015


A paixão que nutro pelos vinhos deve-se, grande parte, ao Pedro Costa da Garrafeira Jofre na Maia.

Foi a sua própria paixão pelos vinhos, a forma como a transmite, que me fez descobrir este mundo e querer aprender.
Com ele aprende-se involuntariamente, aprende-se a ler mais em profundidade do que em largura e a alegria com que o transmite  faz-nos pensar e querer aprender cada vez mais.

Com o Pedro é uma espécie de "...acto de confiança que dá paz e serenidade. (Fiodor Dostoievski)".
Quase sempre lhe solicito que me elabore uma caixa de vinhos à sua escolha e passo um cheque em branco. Só vejo o que comprei quando chego a casa. Na minha última compra veio uma garrafa de Vega Sicilia Oremus Mandolás Tokaj Dry 2015.

Mal provei este vinho pensei logo: "é por isto que adoro e confio naquele gajo!"

Este branco seco, produzido na região húngara de Tokaji, com uvas Furmint, por Oremus (Vega Sicilia), surpreende com a sua postura e frescura, apresenta-se encorpado e com uma fantástica delicadeza e finura, cremoso e uma acidez singular.

Único e incomparável.

É nestas alturas que sinto que ainda tenho muito para aprender. Não me envergonho de o dizer porque não me envergonho de raciocinar e aprender.

Ricardo Soares

P.S.: Pedro, podes fazer mais uma caixa de vinho à tua escolha que eu depois passo aí?

sábado, 15 de setembro de 2018

Land Soul Terrunho alvarinho 2017


Neste vinho há algo secreto cujo segredo é guardado a mil chaves. E é guardado porque as palavras que o poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Impossíveis de serem ditas.

Creio que o seu criador, José Domingues, sabe o que fez e do que falo!

Até a própria Natureza o ajudou encerrando o segredo dentro das uvas, não permitindo que a voz humana pudesse arranjar sons para as exprimir.

Mas...sinto que descobri o segredo.

Sinto que o compreendo na sua inteireza e tudo quanto nele vive. Bebam e descubram, se conseguirem...

Aparte isso, estamos perante um vinho autenticamente único, com uma singularidade e uma exuberância estrondosa, intenso e interessante estrutura, que se destaca com uma exímia mineralidade e aromas florais, final de boca extenso e em que cada copo é inigualável...

Um vinho feito para ser o actor principal.

Ricardo Soares

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Ramos Pinto Quinta do Bom Retiro 20 anos Porto


Muitos de vós estarão neste momento a pensar: - "olha-me só pró copo deste gajo"...

Eu sei meus senhores e minhas senhoras, talvez o copo não seja o mais adequado, mas soube-me bem pra caraças...até ia pela garrafa se tal fosse necessário.

[Confesso que também me rio muito com as figurinhas que muitos "entendidos" (não os profissionais) me presenteiam quando bebem um vinho com "aquele" requinte, fineza, sabedoria, delicadeza, subtileza; com aquele jeitinho "finesse" a segurar o copo com o polegar e o indicador e de dedo mindinho em riste; a bebericar de beicinho e a arrolar como as pombas...]

Voltando ao vinho...neste belíssimo RP 20 - mesmo neste copo - há uma espécie de reciprocidade entre a necessidade e o objecto; posso não querer beber mas este "copo" ao meu alcance dá-me sede. Satisfação total.
Apresenta um equilíbrio e uma harmonia viva, licoroso, toques de madeira, caramelizado e café, de textura aveludada, suave, seco, persistente, frutos maduros e secos.

Este RP 20 é como andar de bicicleta: é necessário equilíbrio. E ele tem-no.


Ricardo Soares

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Quinta de San Joanne Alvarinho 2015


Há vinhos que pura e simplesmente caiem que nem ginjas.

Não, não quero afirmar que tem aromas a ginja (que raio de mania esta de reduzir um vinho apenas às propriedades organolépticas).

Deixo aqui uma breve pesquisa bibliográfica sobre «Cair que nem ginjas» e à qual podem acrescentar o Quinta de San Joanne Alvarinho 2015:

- O Dicionário Prático de Locuções e Expressões Correntes, de Emanuel de Moura Correia e Persília de Melim Teixeira, edição da Papiro Editora, regista a expressão «cair que nem ginjas», com o significado de «ser óptimo, excelente; ter bom sabor».

- O Dicionário de Expressões Correntes, de Orlando Neves, editado pela Editorial Notícias, acolhe «cair que nem ginjas» («cair bem») e «calhar que nem ginjas» («vir muito a propósito»); substancialmente, querem dizer a mesma coisa.

Tenho dito!


Ricardo Soares