quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A idiotice no mundo dos vinhos


No outro dia estava com um copincha, estimado produtor de vinhos, que me disse algo parecido com isso (o presente texto foi enviado para correcção):

"Eh pá os bloggers e alguns enófilos, destes que andam por aí nos grupos de Facebook, como hei-de dizer...estão-me sempre a bater à porta...é tudo vira o disco e toca o mesmo, fazem copy past de textos do Google ou de outros colegas...enfim, o vinho já nem lhes sabe a nada!
A maioria publica textos de vinhos que só bebem nas provas organizadas nas garrafeiras, nos eventos ou em visita aos produtores...estes não são os nossos verdadeiros compradores de vinhos...são óptimos a esvaziar uma garrafa...comprar tá quieto!
Leio provas organolépticas tão parvas, sabe-lhes a tudo: cedro, musgo, húmus, lápis de cera, a seda, a natas, notas Petroladas, a borracha, etc. Às vezes esquecem-se que o vinho pode estar estragado.
Já não há capacidade crítica, em que escola é que esta gente andou?
Olha, sabes o que disse um dia o teu amigo Sigmund Freud? Disse: Antes de ser diagnosticado com depressão ou baixa auto-estima, certifique-se de que não está rodeado por idiotas."

Foi mais ou menos isso, e entre outras coisas...

Enquanto ele deambulava frases em vozes alta eu pensava ao mesmo tempo: "já não me recordo de ir a um evento, jantar, feira, prova, etc."


Cheguei a casa, procurei nos meus livros de Freud a referida citação dos idiotas e deparo-me com esta: "Acabei por convencer-me de que a masturbação era o único grande hábito, a «necessidade primitiva», e que as outras necessidades, como as do álcool, da morfina, do tabaco, não passam de seus substitutos, produtos de substituição."

Ricardo Soares

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Giz vinhas velhas branco 2016


Ao beber o vinho Giz branco vinhas velhas 2016 relembrei-me de um excerto do poema de Saul Dias (irmão de José Régio), in "Essência":

"Um poema
é a pedra duma escola
com palavras a giz
para a gente apagar ou guardar..."

Faço destas palavras as minhas para definir este vinho, "apaguei-o" bebendo e guardo-o riscando nesta crónica o seu poema.

E, se o guardo é porque é um poema marcante e que se exibe delicado, elegante e vibrante a cada copo. Um vinho de grande complexidade aromática, cítrico e floral, e cheio de frescura e mineralidade. Um fantástico vinho para beber e guardar, bastante gastronómico.

Tive há pouco tempo o prazer ter um encontro e uma belíssima conversa com o Luís Gomes. Falamos sobre tanta coisa, conversas simples sobre coisas simples e complexas. Sobre o Giz e outras coisas da vida. Foi neste encontro que percebi também o amor e o suor do Luís pelo Giz.

Comecei esta crónica com Saul Dias e termino-a com um excerto do poema do seu irmão José Régio in "Poema do Silêncio", que define muito bem o sentimento do Luís Gomes:

..."Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes..." e este giz, digo eu.

Ricardo Soares

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Sidónio de Sousa reserva tinto 2008


Quando publiquei este vinho no Grupo de Facebook Desarrolhar tive um comentário deveras curioso do meu amigo Miguel Ferreira, d' A Lei do Vinho: "E que contou o vinho? Não o deixes em silêncio porque estes vinhos foram feitos para nos contar histórias"

Não lhe respondi na íntegra porque tive receio de não fazer jus ao vinho e ser vago demais. Mas se tivesse de o resumir em duas linhas pegaria nas palavras de Thomas Jefferson: "Os momentos mais felizes da minha vida foram aqueles, poucos, que pude passar em minha casa, com a minha família."

E assim foi na companhia da minha mulher, da minha filha e de um casal que, não sendo do mesmo sangue, são família.
Além do laço que os une à minha filha (madrinha), família são aqueles que escolhem, de forma livre, estar connosco. São aqueles que não nos abandonam, nem esquecem, e que nos enriquecem e embelezam tornando a família ainda mais harmoniosa. São estes que fazem com que a família seja maior que a humanidade.

E este vinho completou na perfeição a união e convívio familiar. Apresentou uma belíssima tonalidade, de cor granada, com um início tímido mas copo a copo foi-se revelando com alguma intensidade, aromas frescos e florestais, frutos vermelhos, bem estruturado e cheio de vida, quase mastigável, e com grande profundidade.

...serena harmonia que emana deste vinho e desta família, feitas para se unirem!

Ricardo Soares

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Marcado a Ferros branco 2016


Às vezes perguntam-me: "quais os vinhos que mais te marcaram?"

Respondo sempre que há determinados vinhos que me marcaram imenso como aqueles ferros em brasas que cravam e gravam definitivamente o gado, madeira, couro e até escravos.

[...(risos)...quando digo "marcar" não quero com isso desenvolver provas organolépticas cheias de floreados, frutarias, tabacarias, agricultura, madeireiras, resineiras, excreções de abelhas ou outros animais, etc e tal...(risos). Sirvo-me destas crónicas para fazer embrulhos ou como papel urgente de retrete quando não houver outro.]

Adiante...

Um dos vinhos que mais me marcaram foi o Tirado a Ferros branco e...este Marcado a Ferros branco, ambos do mesmo produtor - Pedro Pimentel.

É daqueles vinhos que me fazem não pensar no dia de amanhã. Um vinho que me faz viver a urgência de ser o hoje e o agora.
Mesmo logo à tarde é muito tarde, uma espécie de insensatez. Tudo hoje é tão efémero...
Este é um vinho que me permite viver dentro do sonho do meu ser absoluto, não pensando no amanhã nem no tempo de ontem.
Tudo neste vinho foi feito para pensar neste instante e em tudo aquilo que eu sou. Este instante que vivo, a beber este vinho, é a única memória deste tempo.

Há neste vinho várias gerações que querem ser vida no dia de hoje. Ser agora! Várias gerações que fizeram com que este vinho se pudesse beber hoje.
Por isso não esperei muito tempo, abri o vinho e glorifiquei todas as gerações nele presentes.

Por tudo isso, e pela belíssima complexidade, foi dos vinhos que mais me marcaram, este Marcado a Ferros branco 2016.

Não sei se o Pedro Pimentel concorda comigo!

Não sei se você, caro leitor, concorda comigo?

Experimentem...

Ricardo Soares

Chão do Vale vinhas velhas branco 2017


Já ouviram os economistas e gestores a falar no "oceano azul" e no "oceano vermelho"?

Muito resumidamente o oceano vermelho são as guerras, concorrência desenfreada, em que todos tentam abocanhar uma parcela maior do mercado existente; no oceano azul imperam as oportunidades, o espaço de mercado desconhecido, inexplorado e livre de concorrência e de crescimento rentável.

Carinhosamente deixem-me falar no vinho Chão do Vale vinhas velhas branco 2017, que maravilhosamente nada em pleno oceano azul.

A zona de Lafões a ser redescoberta e a exibir a sua essência neste vinho.

Tudo dentro de uma garrafa brilhante, elegantíssima e sumptuosa, um vinho cheio de oportunidades sensoriais e um exemplo (pleno) de contemporaneidade.

Um vinho que entrou no lote dos melhores brancos que bebi este ano, de grande complexidade aromática, fresco, com uma acidez vibrante e de grande pendor gastronómico.

Nutro imensa estima e carinho pelo produtor, os mesmos proprietários da Quinta Chão de São Francisco e onde produzem o vinho Chão da Quinta.

Pequenas oportunidades são muitas vezes o começo de grandes empreendimentos económicos, sociais e culturais.

Lafões, qual fénix!


Ricardo Soares

domingo, 11 de novembro de 2018

Vinho e Barba


Numa "era" em que, infelizmente, quase todas as crónicas de vinhos rondam apenas as notas  organolépticas (risos...) apetece-me debruçar sobre algo diferente.

Sei lá...por exemplo, vinho e barba. Eu, amante de vinhos e barbudo me confesso.

Se repararem, desde os primórdios que o vinho e a barba são para o homem sinónimos de virilidade, de masculinidade e maturidade. Através de uma breve pesquisa pelo Google veremos que ao longo da história de diferentes culturas, aos homens bebedores ou com barba foram atribuídos: sabedoria, potência sexual e status social. Hoje predomina a estética e requinte.

Em algumas religiões a presença e tipo de barba, assim como os vinhos, denotam o grau de importância hierárquica ou até o status social a que o indivíduo pertence.

Se eu for a um psicólogo (sendo eu um deles) talvez me atire tudo isso à cara. A minha mulher talvez me diga que sou apenas vaidoso, peneirento e "esquisito" a beber.

Introspecção: vaidoso, requinte e prazer num bom copo vinho.

Por isso gosto de percorrer e comprar em algumas garrafeiras como a Garrafeira do Jofre, Wine o' Clock, Garage Wines, Corte Inglês, Garrafeira Nacional, Goliardos, Fernando's Winehouse e essencialmente directamente nos Produtores.

A barba, além de comprar artigos no Corte Inglês, sugiro que visitem os produtos de excelência dos Barbudos (www.barbudos.pt).

"...Corre por aí que sou vaidoso. Mas eu acho que a vaidade é a coisa mais bem distribuída deste mundo. Vaidosos somos todos nós. A questão está em saber se há alguma razão para o ser ou se se é vaidoso sem razão nenhuma." - José Saramago.

...E uma barrica de vinho produz mais milagres que uma igreja cheia de Santos...


Ricardo Soares

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Viúva Gomes Colares tinto 1931














Hoje o post vai sem a foto do vinho que bebi.

Tentem perceber uma coisa:
- Durante 30 minutos revivi 87 anos dentro de um copo.

NÃO há imagens que valham mais do que mil palavras. E há palavras que também NÃO valem de muito.

Não há nada, palavras ou imagens, que expliquem o que são 87 anos dentro de um copo.

Apenas o momento vivido, e a sua memória, valem mais do que uma imagem e mil palavras.

Tudo aconteceu no quartel-general da Adega Viúva Gomes. O pai e o filho Baeta à minha espera, como sempre pontuais. E muito, muito, muito cordiais, como sempre foram.

Adoro esta família, esta casa, os vinhos e as suas histórias.

Quando jorrou no copo o belíssimo néctar de 1931 contentei-me em descobrir, abstendo-me de fotografar e de explicar. Descobrir a profundidade, as vozes, a temporalidade, a história, as mãos, o suor, as lágrimas e a salinidade do vinho.

Repito:
- 87 anos em 30 minutos dentro de um copo.

Não será difícil perceber que "os" Viúva Gomes fazem parte dos meus "tempos" favoritos.

Por isso hoje, para vós, não vale a pena dizer palavras em vão nem sequer uma imagem recreativa.

Contentem-se com estas palavras que são uma vida inteira dentro de um copo: Viúva Gomes Colares tinto 1931.

Intemporal dentro de um tempo.

Ricardo Soares

P.S.: as fotos que tirei foram antes de beber o belíssimo Viúva Gomes Colares tinto 1931. A partir daí esqueci-me completamente da câmara fotográfica...