quinta-feira, 8 de junho de 2017

Cockburn's 20 anos (engarrafado em 1988)


Conheci um senhor que guardava o Douro dentro de si e em criança tinha o sonho de ser arrais, como o pai. Contava-me tantas histórias vividas, das vezes que nadava o Douro de margem a margem, de como fez a instrução primária com distinção e depois um padre o quis levar mas o pai não deixou, de como o pai o obrigava a partir amêndoas e o miolo tinha de sair direitinho para vender e ganhar mais uns tostões, dos sapatos emprestados para ir à comunhão e ao exame da 4a classe, de como andava de nagalho à cabeça e todo nu, do rio quando ficava bravo no inverno, das trutas e barbos que apanhava e vendia (ficava só com 3 trutas, uma para o pai e as restantes para dividir entre a mãe e os 6 filhos), da miséria que era naquele tempo, das águias imperiais que planavam lá no alto, da apanha da azeitona, das tempestades assustadoras, das crianças que iam a enterrar e que morriam sem explicação, das vindimas até à última uva e se alguma caísse ao chão levava um estaladão, dos dias e noites que ia com o pai, arrais da região, nos rabelos com mais de 50 pipas da Cockburn's e às escondidas "mata-bichava só um bocadinho daquele Vinho"...


E por isso o vinho do Porto Cockburn's é para mim um lugar de afectos... e este Cockburn's 20 anos foi o renascer de todas as conversas que tive com este senhor. Muito bonito na cor âmbar, tem mesmo uma certa austeridade que lhe dá uma certa graça, muito gordo e aveludado na boca, de textura sedosa e grande delicadeza de aromas e com um final longo e elegante... Sem dúvida um Porto cheio de afectos e murmúrios de conversas já falecidas...

O meu avô guardava o Douro dentro de si e contava-me todas estas e outras histórias, obras de gente simples e humilde, mas quis o destino que o meu avô se empregasse nos comboios a vapor, no percurso diário Porto - Barca d'Alva. E dedicou toda a sua vida a sonhar: - ser arrais dos barcos rabelos!

Ricardo Soares

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