quarta-feira, 4 de julho de 2018

Escrever sobre vinhos


Um dos grandes mistérios da escrita é que posso expor variadíssimas coisas, mesmo as inatingíveis. Pode não ser o melhor método, mas é um. Posso escrever sobre o silêncio porque é um modo de alcançá-lo. Posso também escrever facilmente sobre a morte porque essa não é maneira de morrer.

O dilema é quando quero alcançar uma palavra e não consigo, vagueio por ali deambulante e titubeante à procura. Nem sempre com resultados satisfatórios...

O mesmo se passa com os vinhos. Há experiências interessantes quando se bebe um vinho e se o percebe. Para mim não chegam as palavras despojadas e reduzidas ao básico: os taninos, os citrinos, a fruta vermelha, acidez, flores, notas tropicais, carvão, mineral, frescura, estrutura, o sedoso e o melado, especiarias, etc...

Os vinhos são muito mais do que um dicionário: têm sons indizíveis que nos emocionam; sabores que se revelam antes, durante e após a sua libertação; têm espírito e sensibilidade; conservam dentro de si a alma das gentes...

Procurar isso, ou procurar escrever textos que façam sentir isso, é uma das minhas buscas permanentes.

Faz-me ser mais humano.

Ricardo Soares

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